A Comunicação e o Homem
Por
Felipe Cerquize - cerquize@gmail.com

Nada
do que foi feito pelo homem poderia existir
se não fosse a constante troca de informações
entre os indivíduos dessa espécie.
O mais interessante de tudo é que, apesar
de a coisa nem sempre ser feita de maneira organizada
e racional, na maioria das vezes, acaba permitindo
que cheguemos a conclusões importantes
para o nosso próprio progresso. Um soco,
um sorriso, um aceno, uma letra, mil palavras,
uma música, um carinho, um xingamento,
um elogio, um projeto, um dejeto, a indiferença,
o apelo, a continência, a incontinência,
o diálogo, o discurso e até mesmo
o suicídio, como forma derradeira, são
maneiras sutis, hostis ou incisivas de comunicação.
Na verdade, em quase tudo ela está implícita,
porque cada atitude manifestada e interpretada
acaba fechando o ciclo que define essa palavra.
A lapidação paulatina desse poderoso
instrumento de nossa evolução
é que vem, cada vez mais, diferenciando
o homem dos outros animais. No início,
espantávamo-nos muito mais do que devíamos,
mas o entendimento gradual das coisas tem nos
permitido eliminar espantos desnecessários,
convertendo-os em ferramentas para a evolução.
O fogo e a roda são exemplos clássicos
de domínios inteligentes de elementos
e formas que, no nosso mundo atual, tornam-se
indispensáveis.
Define-se comunicação como "o
ato ou efeito de emitir, transmitir e receber
mensagens por meio, métodos e/ou processos
convencionados, quer através da linguagem
falada ou escrita, quer por meio de outros sinais,
signos ou símbolos, quer utilizando-se
de aparelhamento técnico especializado,
sonoro e/ou visual". Esta definição
procura ser bem abrangente, mas me parece que
ainda não é suficiente para cercar
o domínio de possibilidades que essa
palavra tenta significar. A telepatia, por exemplo,
é uma forma ainda pouco explorada para
troca de informações entre os
seres humanos e, sem dúvida nenhuma,
ainda virá a ser um instrumento muito
mais poderoso do que qualquer outro que até
hoje tenha sido utilizado por nós para
este fim. Sabe lá o que é você
perceber o que outra pessoa está pensando
sem que haja uma manifestação
física para que isto ocorra? Os sonhos
talvez pudessem transformar-se em um Buñuel,
representando o surrealismo de maneira bastante
legítima. Mas o fato é que, apesar
de todos os avanços obtidos nessa seara,
ainda não sabemos praticamente nada sobre
os meios efetivamente possíveis e sobre
os caminhos a que o conjunto deles poderá
nos levar. As manifestações espirituais,
observadas em algumas pessoas, também
são um grande mistério para a
maioria dos mortais, sendo bastante interessantes,
na medida que permitem troca de informações
entre dois planos de vida distintos, que cientificamente
não possuem interfaces que lhes concedam
a possibilidade de comunicação,
o que nos leva, inclusive, a encarar a vida
após a morte como um assunto fundamentalmente
esotérico.
E no mundo moderno, como é que vemos
a sua manifestação? De maneiras
cada vez mais sofisticadas, pois o homem, hoje,
está muito mais ciente da força
desse instrumento na conquista do velho e almejado
lugar ao sol. Daí, surgiu uma nova forma
de comunicação, embutida num pacote
que passamos a chamar de mídia. A partir
dela, consegue-se tudo ou quase tudo. Se o político
promete, o povo acredita; se for feita uma propaganda
de uma bicicleta voadora, as pessoas a compram
por qualquer preço; se o neoliberalismo
é anunciado como a panacéia universal,
todos, abestalhadamente, o adotarão.
Os meios de comunicação modernos
estão aí, prontinhos para utilizar
os nossos olhos, ouvidos e demais sentidos.
A televisão, nós sabemos que hoje
é o meio mais poderoso de todos, pois
penetra em quase todos os lares, sem querer
saber a quais classes pertencem. Aí,
esparrama seus programas e comerciais, deixando
as pessoas estateladas diante de sua tela. Mas
a tecnologia não se dá por satisfeita
com isto e continua assanhando-se e multiplicando
o seu número de "chips" para
outras direções. O computador
é hoje a opção que mais
extrapola o objetivo humano de se comunicar,
armazenando, interpretando e propagando informações
de uma forma absolutamente surpreendente para
aqueles que ainda insistem em o acompanhar de
longe. Talvez, este seja o meio que mais chances
tem de atingir os últimos degraus da
escala de compreensões mútuas
sobre a qual desenvolvemos todas as nossas teorias
e esforços no afã do progresso.
A evolução exponencial que hoje
observamos só nos leva a crer que chegaremos
muito rapidamente a situações
inimagináveis há alguns anos.
O ciclo de vida dos produtos está cada
vez mais curto. A Hewlet-Packard (HP), por exemplo,
tem lançado uma nova impressora para
computador a cada seis meses. A General Motors
lança um novo modelo de carro a cada
três meses. Num mundo como este, a única
certeza estável é a de que tudo
vai mudar, o que nos leva a índices de
obsolescência cada vez maiores. De repente,
não acompanhamos mais nada, porque o
mundo exige de nós uma busca tão
acelerada pela atualização, que
acabamos não respondendo com a velocidade
exigida. Além do mais, a tendência
é sempre nos acomodarmos em torno do
que nos é conhecido, pois todo ser humano
tem medo do novo. Hoje, 300 anos de jornal podem
ser transmitidos em 1 segundo (1 trilhão
de bits por segundo). Desde 1995, a venda mundial
de computadores é maior do que a de televisores.
No Media Lab, do Massachussets Institute of
Technology, já conseguiram 16 horas de
áudio num CD. Na Internet, tivemos 10
milhões de mensagens enviadas, enquanto
você lia este parágrafo até
esta linha, e teremos mais de 2 bilhões
de usuários até o fim de 2007.
Hoje, 50 mil pessoas vão adquirir um
telefone celular e 900 milhões de mensagens
serão deixadas no correio de voz. O que
antes demorava 1 século para acontecer,
agora acontece em apenas 1 mês (Fotografia:
112 anos, telefone: 56 anos, rádio: 35
anos, televisão: 12 anos, transistor:
5anos, circuito integrado: 3 anos, AT 286: 1
ano, do 486 ao Pentium: 1 mês). Portanto,
meus amigos, a informação será
o único produto daqui para frente e a
comunicação o suporte inalienável
para que sigamos o ritmo das transformações
correntes.
Felipe Cerquize
Carioca, Felipe Cerquize formou-se engenheiro.
Enveredou pelas artes, mais especificamente
pela música e pela literatura. Escreveu
Rhumor (livro de contos e crônicas em
1996), Contos Sinistros ( em 2005 ) e Conversa
Rimada (livro de poesias em 2007). Em 1999 gravou
o CD Léguas, voltado para a MPB. Sua
homepage é www.clubedoscompositores.com.br/felipecerquize.
|