Como
valorar pessoas
Por
Felipe Cerquize - cerquize@gmail.com

Certamente,
o ser humano não tinha a menor idéia
dos efeitos colaterais que provocaria, quando
substituiu a permuta por um padrão de
referência que lhe permitisse a aquisição
dos bens que bem entendesse. Gerador de sentimentos
mil e capaz de adaptar o homem a todos os meios,
o dinheiro é o agente tanto de guerras
como do conforto tecnológico com o qual
estamos cada vez mais acostumados a viver. Um
perfeito promotor de atitudes, que move as massas
para todos os sentidos, metaforicamente ou não.
Tê-lo não deveria ser, em hipótese
alguma, uma referência para a classificação
dos indivíduos, mas, infelizmente, é
uma das fontes de preconceitos a que o homem
se acostumou na hora de avaliar o seu semelhante.
Eu arriscaria dizer que a cultura, a aparência
física, a fala mais cativante, os olhos
mais belos, a melhor das intenções,
tudo isto passa a ser secundário, para
a maioria dos habitantes deste planeta, quando
o poder aquisitivo do interlocutor se sobrepõe
ao dos que estão na vala comum das guerras
de rotina. Diante dessa força tão
contundente, não é de se estranhar
que vejamos andróides pelas ruas, chorando
lágrimas de crocodilo, a fim de tirar
um centavo que seja de outrem, para que, à
noite, possam sentar-se numa confortável
poltrona, ligar o ar-condicionado e apertar
o controle remoto para ver o mundo desabar.
Não é meu intuito fazer do dinheiro
a fonte emanadora de todos os males. Na sociedade
contemporânea, nunca dois ou dez sacos
de sal seriam formas justas de se recompensar
o trabalho de um assalariado. Sinceramente,
acredito que a utilização de um
padrão monetário seja a forma
mais viável de agradecer pelos préstimos
de um serviço, pois, assim, o trabalhador
poderá fazer o que bem quiser com o fruto
do seu suor. No entanto, o perigo surge no fato
de, muitas vezes, os fins justificarem os meios,
criando uma situação maquiavélica
que deteriora o alicerce das necessidades essenciais.
Pior do que isto, só quando não
existem nem meio nem fim, o que poderá
levar o proponente a um distúrbio psíquico
ou mesmo a uma inanição social.
Um exemplo simples é o do operário,
que recebe o seu salário, passa em frente
a uma agência de automóveis e vê
que o recebido corresponde a um por cento, ou
menos, do valor de um carro. Que vai ao supermercado
e mal consegue transformar o dinheiro que recebeu
em nutrientes, a fim de poder continuar trabalhando.
E mesmo que queira ser místico, não
poderá esquecer-se do dízimo,
que são dez por cento do pouco que ganha.
Portanto, o alerta é este: o dinheiro
acabou virando a grande fonte das injustiças
sócio-econômicas das nações.
Pela sua má distribuição,
pelo seu mau emprego, pelas suas potencialidades
bélicas, pela sua capacidade de despertar
sentimentos negativos etc.
Existe alguma outra maneira de valorar as pessoas?
É claro que sim!! Na verdade, o dinheiro
não valora nada. Na maioria das vezes,
é apenas a parca retribuição
para um esforço físico e/ou mental.
O problema é que estamos cada vez mais
desaprendendo como perceber o que as pessoas
são de fato e, talvez por isto, tudo
esteja mudando tão freneticamente no
mundo atual. Diante desta realidade, o que sugiro
é que prestemos mais atenção
nos verdadeiros sentimentos de nossos semelhantes,
ou seja, naqueles sentimentos que, convertidos
em desejos, não signifiquem a preocupação
em obter recursos financeiros que os tornem
reais, pois independem disto para que se concretizem.
Tenho plena convicção de que ainda
seja possível valorar as pessoas pelo
seu grau de humanismo. Tenho certeza de que
o homem é um produto do meio em que vive.
Então, se ficarmos de braços cruzados,
alimentando o ódio e subestimando tudo
e todos, não tenha dúvida, leitor,
de que, mais cedo ou mais tarde, seremos vítimas
de nossas próprias armas, sem ninguém
para compartilhar eventuais crenças e
esperanças e com o nível de auto-estima
bem abaixo do mínimo tolerável
para podermos continuar tocando nossas vidas
no meio da sociedade que escolhemos para somar
nossas ambições.
Felipe Cerquize
Carioca, Felipe Cerquize formou-se engenheiro.
Enveredou pelas artes, mais especificamente
pela música e pela literatura. Escreveu
Rhumor (livro de contos e crônicas em
1996), Contos Sinistros ( em 2005 ) e Conversa
Rimada (livro de poesias em 2007). Em 1999 gravou
o CD Léguas, voltado para a MPB. Sua
homepage é www.clubedoscompositores.com.br/felipecerquize.
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