Salas de cinema
Por
Felipe Cerquize - cerquize@gmail.com

O que os irmãos Lumière criaram
no final do século XIX jamais permitiria
ao mundo comportar-se da mesma maneira a partir
de então.
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Foi em 28 de dezembro de 1895 que eles exibiram
no Salon Indien aquele que veio a ser conhecido
como o primeiro filme da História:
"A Chegada de um Trem na Estação
da Cidade". Depois do impacto da novidade,
os filmes acabaram tornando-se fotografias
em movimento para os curiosos de maior poder
aquisitivo da època, |
abordando
situações do cotidiano, como o trabalho
ou as relações familiares. Por isto,
começaram a perder a magia das primeiras
apresentações.
George Méliès
foi quem deu um novo rumo ao cinema, transformando
os sonhos das pessoas em imagens animadas e
tornando-se, assim, o inventor de ficções
cinematográficas.
No
início do século XX, o cinema
já era uma indústria. Para atrair
e satisfazer as classes mais altas da sociedade,
começaram a ser produzidas películas
cada vez mais sofisticadas e, de sofisticação
em sofisticação, finalmente, criou-se
o primeiro filme falado, em 06 de outubro de
1927.
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O
cinema continua evoluindo e o avanço
tecnológico no qual se respalda,
ano após ano, é capaz de deixar
as pessoas desnorteadas. Uma pessoa que
tenha visto a estréia do primeiro
filme colorido, é capaz, hoje, de
assistir a efeitos especiais, que transcendem
à realidade, mas que lhe confundem
a ponto de fazer acreditar que tais efeitos
possam não ser parte de uma ficção. |
Afora
o maravilhoso e inabalável avanço
da indústria cinematográfica,
existe um outro lado, menos explorado pela história
da Sétima Arte, que é o das salas
de exibição. Ali está o
ponto estático dessa magia, mas que assume
um papel fundamental na sua história.
Quantas gerações não se
aglomeraram em torno e dentro dessas salas em
busca de ilusões reais e imaginárias?
A ilusão de um enredo utópico
na tela e a de um grande amor percebido no primeiro
beijo, lá na última fileira de
uma matinê qualquer.
Esse
ritual, que inclui tanto crianças quanto
idosos, traz consigo um lado bastante saudável
da sociedade. Por décadas e mais décadas,
pessoas vêm se mobilizando para ficar
numa sala escura, onde um feixe de luz é
projetado diante de uma tela, estampando imagens
que formam uma história a ser classificada
como agradável ou não ao final
da sessão. Houve uma época em
que as projeções eram seriais,
numa espécie de novela que forçava
as pessoas a saírem de suas casas para
participarem e discutirem sobre um enredo cinematográfico.
Nada que pudesse exigir demasiadamente do intelecto.
Aventura e romance eram, e ainda são,
fórmulas eficazes para estimular esse
tipo de relacionamento entre o público
e os produtores.
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Com
o início da era da televisão,
muito do que acontecia nos cinemas passou
a acontecer dentro das próprias casas
das pessoas. Em meados do século
XX, havia a possibilidade de uma redução
do número de salas de exibição,
em função da nova parafernália
tecnológica que se instalava nos
lares de todo o mundo. |
Qual
seria o sentido para as pessoas de se locomoverem
de suas casas para o cinema para ver um filme,
se poderiam fazer a mesma coisa sem sair de suas
casas? Mas a lógica traçada a partir
de cenários idealizados pelas indústrias,
muitas vezes, teima em não se confirmar.
E, no meio dessa contradição, em
plena infância, eu assistia a vesperais
no Cine Palácio, mesma sala onde, ainda
aos dezesseis anos, tentei ver o meu primeiro
filme censurado para menores de dezoito anos e
não consegui. Bons e maus filmes continuavam
sendo lançados para o cinema e a indústria
que estava por trás disso tudo só
prosperava. Realmente, as pequenas telas domésticas
não conseguiram substituir a emoção
de uma sala de projeção, com seus
pequenos encantos, como o dropes, a pipoca e a
namorada.
E assim continuou pelos anos setenta e oitenta.
Porém, nessa última década,
associadas ao progresso e à violência,
surgiram novas ameaças à existência
das salas de projeção. Naquela época,
quando abria um jornal e lia que os cinemas de
rua estavam fechando, achava que, daquela vez,
o fim do modelo era inevitável. A mudança
de certos conceitos comerciais, coincidentemente,
veio junto com um novo modelo tecnológico,
cuja carapaça foi batizada de videocassete.
Aquela era uma receita explosiva que tinha tudo
para acabar com as salas de exibição
de filmes. De fato, o cinema de rua minguou e
mais da metade das salas existentes sumiram. Em
compensação, o novo modelo de comércio,
que se enraizava e crescia, acabou tornando-se
um novo nicho de sobrevivência para as salas
de cinema.
Os shoppings, ao tempo em que protegiam
os cidadãos mais abastados da crescente
violência urbana, também criavam
condições perfeitas para a exibição
de matinês e sessões da meia noite.
Já o videocassete fez surgir um novo tipo
de comércio, o de locação
de filmes, que tinha tudo para enterrar de uma
vez por todas o glamour do escurinho do cinema.
As videolocadoras multiplicaram-se espantosamente
e o aluguel de um filme para ser assistido em
casa saía muito mais barato do que um filme
assistido no cinema. Mas, pelo incrível
que pareça, a novidade que tinha tudo para
dar certo acabou sendo apenas uma fórmula
de transição de tecnologias industriais
que não toleram mais de dez anos sem transformações
de impacto. Na década de 90, chegaram ao
mercado os DVD’s e, com isto, a velha fita
de vídeo começou a ser considerada
obsoleta. As videolocadoras, em dez anos, conheceram
o boom e a sarjeta e, hoje, já é
possível encontrar o DVD gravável
nas lojas, apesar de ainda serem caros. A diminuição
gradual do preço desse novo aparato tecnológico
certamente eliminará de vez o videocassete
da face da Terra.
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No
mínimo, é para ficarmos surpresos.
Tanta evolução, Tanta mudança
de conceitos e modelos, mas a nossa velha
e boa sala de cinema continua intacta no
seu princípio básico. O que
existe de tão especial num cinema?
O tamanho da imagem projetada? A privacidade,
mesmo estando em um ambiente coletivo? O
lado romântico e |
saudosista
a que se submetem as novas gerações
que a freqüentam? Os lanterninhas, agora,
são raros, mas a pipoca evoluiu e, hoje
em dia, pode ser comprada em pequenos sacos,
como antigamente, ou em “baldes”,
que servem aos namorados mais gulosos durante
uma sessão.
Felizmente,
o furor tecnológico das últimas
décadas não conseguiu atingir
esses pequenos prazeres.
Felipe
Cerquize
cerquize@gmail.com
Carioca, Felipe Cerquize formou-se engenheiro.
Enveredou pelas artes, mais especificamente
pela música e pela literatura. Escreveu
Rhumor (livro de contos e crônicas em
1996), Contos Sinistros ( em 2005 ) e Conversa
Rimada (livro de poesias em 2007). Em 1999 gravou
o CD Léguas, voltado para a MPB. Sua
homepage é www.clubedoscompositores.com.br/felipecerquize.
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