Saudades
da sutileza
Por
Felipe Cerquize - cerquize@gmail.com

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A minha infância foi vivida numa época
em que os conflitos políticos no
Brasil eram muito grandes. Cheguei à
adolescência e a repressão
ainda ditava o comportamento no nosso país.
O que se observava era uma porção
de gente sufocada, querendo falar o que
pensava, mas sendo impedida pelos olhos
astutos do poder instituído. Daí,
vieram as comunicações de
duplo sentido. |
Fosse
no teatro, na música, nos livros ou no
próprio diálogo diário das
pessoas, certos temas não podiam ser tratados
de forma direta, sob o risco de o autor ser mal
interpretado e sofrer conseqüências
nada agradáveis por isto.
No período imediatamente anterior a essa
fase, não havia uma censura política
de tamanha magnitude, mas a sociedade era mais
reprimida do que a atual. O sexo era um tabu muito
maior, a tradicional Igreja Católica era
um dos pilares das famílias brasileiras
e a mulher sujeitava-se, sem grandes esforços,
ao homem que escolheu para ser "feliz"
para sempre. Salvo determinadas exceções
extemporâneas, pode-se dizer que, quanto
mais para trás no tempo, mais conservadora
era a sociedade em que se vivia, independente
do regime político a que estivesse sendo
submetida num determinado momento de nossa História.
De repente, quando percebo, já estou em
2007. Seis anos depois do ano da ficção,
que todos imaginávamos através dos
olhos de Stanley Kubrick. Um ano tido como símbolo
das conquistas e do conforto tecnológico.
A realidade é sempre um pouco decepcionante,
pois, no imaginário, costumamos nos levar
a situações perfeitas. De qualquer
maneira, há de se reconhecer que ocorreram
muitas mudanças até chegarmos onde
estamos. No Brasil, uma dessas mudanças,
sem dúvida, é a maior liberdade
de expressão. Estamos vivendo um momento
em que é permitido falar quase tudo em
quase todos os lugares. Se ligo a televisão,
às três horas da tarde, num canal
aberto, posso ver um filme com cenas tórridas
de sexo. Em Brasília, o que se assiste,
para congestão geral dos que jantam diante
da TV, é a troca de imprecações
entre interesses de poder e a ministra Marta Suplicy
desejando que todos relaxem e gozem no escurinho
do apagão aéreo. Nas ruas, é
comum vermos evangélicos de igrejas estrategicamente
localizadas querendo a nossa conversão
a todo custo (se não nos convertemos, somos
discípulos do capeta). Enfim, o que eu
quero dizer é que a baixaria deixou de
ser a exceção para ser a regra,
dentro de um mercantilismo que, não duvido
muito, seja capaz de fazer a mãe vender
o filho recém-nascido para faturar um trocado
(se não me falha a memória, isto
já foi notícia. Se foi, não
tenho do que duvidar).
Juro para vocês que não tenho nada
contra a liberdade de expressão. É
um direito conquistado graças à
quebra de muitos tabus e regimes. A única
coisa que não quero é ser considerado
peça de um jogo, onde as pessoas são
o tempo todo ou compradoras ou vendedoras, numa
guerra mercadológica que se aproveita da
liberdade existente para aviltar os nossos sentidos
de todas as maneiras possíveis. Tenho saudades,
sim. Não da repressão, não
da censura, não da maior hipocrisia social
de outrora. Tenho saudades da sutileza, que foi
se perdendo no tempo com a nova visão de
mundo que se instalou nas nossas retinas.
Se fosse para pedir alguma coisa para o futuro,
gostaria que o ser humano começasse a pensar
tanto em mecanismos que bloqueassem um pouco a
sua ganância quanto em colaboradores que
não fossem tão objetivos na realização
de suas tarefas. Talvez, assim, possamos começar
a inverter esse quadro sem perder as conquistas
obtidas de forma tão suada, ao longo de
todos esses anos.
Felipe
Cerquize
cerquize@gmail.com
Carioca, Felipe Cerquize formou-se engenheiro.
Enveredou pelas artes, mais especificamente
pela música e pela literatura. Escreveu
Rhumor (livro de contos e crônicas em
1996),Contos Sinistros ( em 2005 ) e Conversa
Rimada (livro de poesias em 2007). Em 1999 gravou
o CD Léguas, voltado para a MPB. Sua
homepage é www.clubedoscompositores.com.br/felipecerquize.
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