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Todos
querem falar
Por
Felipe Cerquize - cerquize@gmail.com

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Mas
poucos querem ouvir. Não que façamos
isto propositalmente. O que acontece é
que a vaidade de cada indivíduo faz
com que os seus sensores estejam, a maior
parte do tempo, mais preocupados em transmitir
do que em captar. Este é um dos focos
do descompasso social em que vivemos e uma
das fontes lícitas do enriquecimento
dos psicanalistas mundo afora. E também
do fortalecimento das |
religiões,
visto que, na falta de alguém que nos escute
aqui na Terra, procuramos extravasar nossos sentimentos
com os representantes dos céus. Esse comportamento
não está atrelado aos preceitos
e preconceitos que são nossas referências
diárias. É mera conseqüência
da missão genética de cada espécie
aqui no nosso planeta, ou seja, propagar o máximo
de si para obter o máximo de espaço
possível. Naturalmente, isto acaba virando
uma grande peleja, com nações, partidos,
facções, associações
ou simplesmente indivíduos falando de tudo
para promover os seus interesses.
Dentro desse contexto, quem faz a diferença?
São os que se dispõem mais a ouvir
do que a falar. São os que ajudam mais
do que pedem ajuda. São os que lhe estendem
as mãos sem pedir nada em troca por isto.
Não estou falando de utopia. Isto é
real e pode estar no nosso dia-a-dia. Mahatma
Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa são
exemplos famosos desse tipo de comportamento.
Quem sabe se a nossa Zilda Arns Neumann, também
não tenha, um dia, consagradas internacionalmente
as suas ações junto à Pastoral
da Criança? Enquanto a caravana passa,
os que só têm tempo para pensar em
suas conquistas certamente não perceberão
a importância dessas pessoas e que elas,
de alguma maneira, são parte dos benefícios
sociais de que desfrutam.
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Por
falar em criança, acho muito tocante
o trabalho da Fundação Gol
de Letra (http://www.goldeletra.org.br).
Há algum tempo, essa instituição
veiculou uma propaganda na televisão,
em que crianças pobres chegavam às
janelas de automóveis parados em
sinais de trânsito e, ao invés
de pedirem dinheiro, pediam respeito,dignidade
e futuro. Creio que podemos tomá-la
como exemplo para tentar saber onde é
que nos situamos nessa babel diária
de intenções que temos |
de enfrentar. Se você não vê
televisão e não tem a menor idéia
nem sobre esta, nem sobre outras propagandas de
cunho social, veiculadas atualmente, este pode
ser um problema, ou melhor, mais uma forma de
diagnosticar a “ensimesmação”
nossa de cada dia, pois é praticamente
impossível não se ter acesso a esse
meio de comunicação, a não
ser que façamos questão disto, o
que não deixa de ser uma maneira de não
querer "ouvir". Coisas boas e ruins
existem em qualquer lugar e precisamos ter discernimento
para distingui-las sem que deixemos de participar
dos fóruns de conscientização
que nos são possíveis. Assistir
a esse tipo de divulgação indiferentemente,
sem dúvida, é só para aqueles
que estão mais preocupados com seus próprios
umbigos e que, egoisticamente, acham que conseguem
saltar da canoa antes do Juízo Final. Porém,
dos que se sensibilizaram, quantos, efetivamente,
fizeram alguma coisa? Pouquíssimos, certamente.
No país das falcatruas, a primeira coisa
que chega à cabeça do cidadão
calejado que vê uma propaganda do gênero
é "alguém está querendo
se dar bem com isto". Existe uma certa coerência
nesse modo de pensar, pois aqui tudo é
possível, inclusive a sangria desatada
de dinheiro da LBV e o favorecimento de empresas
de parentes do coordenador do PROCON em licitações
públicas. A verdade é que, no meio
dessa celeuma, cada um de nós sabe perfeitamente
onde se enquadra, quando lhe surge a oportunidade
de mostrar os seus predicados e as suas locuções.
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Vocês já
prestaram atenção no fato
de que o palestrante padrão nunca
se propõe a ouvir e sim a falar ou
a ser ouvido? Já repararam que, normalmente,
na mídia, o espaço para o
ouvinte, o leitor e o telespectador se manifestarem
é apenas aquele mínimo indispensável
para a autopromoção do veículo
de comunicação em que ele
está se apresentando? |
Diante da dificuldade de serem ouvidas, as empresas
cada vez mais aperfeiçoam o seu marketing
e a forma de chamar a atenção de
seus clientes potenciais, com muita criatividade,
para que possam reter alguns interessados nos
produtos que oferecem.
E nós? Como é que ficamos no meio
desse tiroteio entre interesseiros e interessados?
Tendo que assumir uma das duas posições
ou até mesmo as duas, simultaneamente,
se quisermos fazer parte das relações
imperiosas que se escancaram diante da gente.
Porém, sempre será possível
quebrar paradigmas. Devemos continuar falando
e nos expressando de todas as maneiras dignas
possíveis, mas lembrando que sempre haverá
outras pessoas querendo fazer a mesma coisa que
nós, o que significa que alguém
vai ter de ouvir. Cedendo um pouco, todos saímos
ganhando. Por falar nisso, acho que já
escrevi demais. Por favor, agora é a sua
vez.
Felipe
Cerquize
cerquize@gmail.com
Carioca, Felipe Cerquize formou-se engenheiro.
Enveredou pelas artes, mais especificamente
pela música e pela literatura. Escreveu
Rhumor (livro de contos e crônicas em
1996),Contos Sinistros ( em 2005 ) e Conversa
Rimada (livro de poesias em 2007). Em 1999 gravou
o CD Léguas, voltado para a MPB. Sua
homepage é www.clubedoscompositores.com.br/felipecerquize.
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